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quinta-feira, 3 de abril de 2014

"1964" mostra o valor da experiência brasileira na construção da democracia

Os autores do livro "1964" são contrários à ideia de um período 'populista' durante o espaço de tempo de 1945 e 1964, como dizem alguns estudiosos


Do Carta Maior
Léa Maria Aarão Reis
reprodução
“O sofrimento incomensurável de pessoas que padeceram com exílios, torturas e mortes de entes queridos é um fato que a sociedade brasileira não deve esquecer jamais. Viver a experiência do autoritarismo marcou gerações e precisa ser alvo de reflexões permanentes.” 

Este é o registro dos dois historiadores, professores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes, na conclusão do volume 1964 - o golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil, de sua autoria, lançado este mês pela Editora Civilização Brasileira. Eles  explicam, com o rigor da minuciosa pesquisa científica e numa narrativa ágil e acessível, as origens da crise que levou o presidente João Goulart à deposição através do golpe militar sustentado e germinado no centro da sociedade civil da época: amplos setores da classe média, do empresariado e da mídia. Um golpe civil-militar e com financiamento generoso do governo americano de então.

Jorge Ferreira é professor titular de história do Brasil da UFF (Universidade Federal Fluminense) e autor do livro João Goulart: uma biografia. A professora Angela de Castro Gomes é professora titular aposentada da UFF e autora de vários trabalhos publicados. Um deles, A invenção do trabalhismo. Atualmente ela leciona na Universidade Federal do estado do Rio de Janeiro (Unirio). Ambos são pesquisadores do CNP.

O período escolhido pelos autores para narrar o golpe de 31 de março no seu livro atual se estende de agosto de 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, um momento segundo eles “suficientemente simbólico e pertinente” até o primeiro de abril quando “soldados do Exército patrulhavam as ruas, nas proximidades da praia (N.R. a praia de Copacabana), cujo ambiente era de otimismo, com populares se manifestando: ’Isso não vai dar em nada’ – em reprodução de matéria publicada na edição daquele Dia da Mentira na revista O Cruzeiro."

No espaço de tempo deste período “curto, mas denso”, a narrativa se espraia através do noticiário da imprensa, da reprodução de alguns depoimentos de políticos (Hugo Faria, por exemplo, o mais breve presidente de toda a história do Banco do Brasil e ex-ministro do Trabalho de Jango) dos que viveram o momento, de militares (como o tenente coronel Gustavo Moraes Rego, o brigadeiro Francisco Teixeira) e de cidadãos que sobreviveram à prisão e à tortura – praticada no Brasil até hoje - uma política de estado infligida pelos agentes de órgãos militares e policiais da repressão aos opositores da quartelada bem sucedida que resultou no golpe de estado e, em seguida, nos vinte anos intermináveis que durou a ditadura civil-militar.

Gregório Bezerra, líder comunista pernambucano, é um desses testemunhos, um forte depoimento extraído pelos professores Ferreira e Castro Gomes do seu livro, Memórias, relatando como foi arrastado pelas ruas de Recife, depois de preso e torturado no próprio dia 01 de abril. E o da professora Dulce Pandolfi à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, ano passado, relatando as sevícias sofridas durante sua permanência de três meses no quartel do exército da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, no Rio de Janeiro, que hospedava o DOI-CODI local.

Este material é publicado em recortes, em boxs que contextualizam e dinamizam a narrativa. São trechos de manifestos, editoriais de jornais, notas oficiais, entrevistas, notas biográficas dos personagens envolvidos no processo político/histórico do período; instruções reservadas de militares – uma delas, de Castelo Branco dirigida à tropa; extratos de discursos como este, de Leonel Brizola: ”... O povo está a exigir uma saída. Mas o povo olha para um dos poderes da República, que é o Congresso Nacional e ele diz não, porque é um poder controlado por uma maioria de latifundiários, reacionários e ibadianos.”

O governador do Rio Grande do Sul se referia aos filiados ao Ibad, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática, ativa organização anticomunista que trabalhava incansável, há cinco anos, criada por empresários de São Paulo.

A opinião e o alinhamento ao golpe se encontram apresentados nesses recortes de editoriais e textos de opinião do Globo que publicava o Manifesto dos almirantes, em 30 de março; do Jornal do Brasil: “A legalidade está conosco - e não com o caudilho aliado ao comunismo” e “A democracia saiu, no mínimo, humilhada, ontem, na Central”; do Correio da Manhã, edição de 19 de março reproduzindo carta de Carlos Lacerda aos governadores na qual fala sobre sua candidatura à presidência no ano seguinte; e no seu célebre editorial, Basta!

E fragmentos de editoriais e textos de Ultima Hora, Novos Rumos, Panfleto, Diário de Notícias apoiando o presidente Jango, e com extratos de discursos e notas de Miguel Arraes e testemunhos de Nelson Werneck Sodré e Hercules Corrêa dentre outros citados por Denis de Moraes.

Um dos registros repisados ao longo do volume 1964 pelos seus autores é este:

“... segundo diversos historiadores, em especial a partir dos anos 1980, o golpe e a própria ditadura civil e militar passaram a ser lembrados como eventos possíveis devido à ação de instituições que dispunham de amplo poder de repressão e propaganda. A sociedade teria sido vítima dessa opressão física e ideológica das elites militares e civis que controlavam o regime. Mas, como temos insistido ao longo deste livro, não há plateia passiva.”

E continua: “Grandes parcelas da sociedade brasileira aplaudiram o golpe ou foram fazer outras coisas: nem preto nem branco. Vários tons de cinza.”

Como ideia final de 1964: ”A democracia deve ser um valor inegociável pois só ela pode garantir a manutenção e o avanço dos direitos de cidadania.”

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