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quarta-feira, 29 de junho de 2011

As Semelhanças entre a Grécia de Amanhã e o Porto Rico de Hoje

Por Tomás Rotta
http://www.marx21.com/
No começo de junho tive a oportunidade de visitar a ilha de Porto Rico pela terceira vez, agora por três semanas. Porto Rico é atualmente uma colônia dos EUA, que usa o dólar como moeda e que já viu suas própria terras serem usadas por décadas para treinamentos militares e para testes de armas radioativas. O que mais me surpreendeu nesta última visita foram as consequências visíveis da recessão econômica. Ao caminhar por várias cidades, e em especial pela capital San Juan, nota-se o assombroso número de casas, edifícios, lojas, hotéis e restaurantes que se viram forçados a fechar suas portas. Lugares tradicionais estão agora relegados às moscas. Nunca tinha visto na minha vida uma cidade com tantos negócios falidos ao mesmo tempo. Nem quando visitei Buenos Aires em 2001, em meio aos protestos e “cacerolazos” que resultaram na troca de 3 presidentes da república, fiquei tão chocado. A recessão é tão forte que pela primeira vez na história da ilha há mais porto-riquenhos fora do que dentro do país.

O governo neoliberal que comanda a política em Porto Rico tornou-se um exemplo de austeridade fiscal, de conservadorismo econômico e de defensores de políticas anti-trabalho. O governador Luis Fortuño, sob o mantra econômico de ter que pagar uma imensa dívida e não deixar o Estado quebrar, implantou medidas altamente impopulares, entre as quais a demissão de grande parte dos funcionários públicos, privatizações de patrimônio público, cortes de gastos sociais, ataques aos direitos trabalhistas etc. Uma pérola no colar do Partido Republicano norte-americano. Fortuño não fez nada mais do que escolher um lado na disputa política. Ao invés de se colocar a favor do trabalho, se colocou a favor do capital.
O neoliberalismo e suas políticas pró-cíclicas, que pioram o problema mais do que o resolvem, faz Porto Rico pagar uma dura conta: garante o pagamento dos títulos da dívida com aumento vertiginoso do desemprego, da violência urbana, do vício às drogas, e com a perda de direitos sindicais. Como diz David Harvey, o neoliberalismo é um projeto de classe, inerentemente anti-trabalho e pró-capital. E como dizia José Saramago, o neoliberalismo é um mundo para os ricos. Fortuño preferiu garantir a credibilidade financeira da ilha socializando a conta com a população inteira. Que a  paguem com desemprego e recessão.

Qual o resultado? Uma recessão que já dura 4 anos, desemprego oficial na casa dos 17% e uma economia que crescerá com a taxa mais baixa de todo o planeta. Os fortes e recorrentes protestos dos estudantes para salvar a universidade pública da completa privatização deixa claro quais interesses estão em jogo.
Alguma semelhança com o que vive a Grécia hoje? Porto Rico pode ser visto como o futuro que a Grécia deve evitar. O governo em Atenas de Papandreou quer implantar as mesmas políticas neoliberais que Fortuño já implantou. Não se fala em outra coisa na Grécia que não seja manter a “credibilidade do país nos círculos financeiros”. Para que o país receba a quinta parcela do empréstimo da UE e do FMI serão “necessários” cortar gastos sociais do governo, despedir 25% dos funcionários públicos, aumentar a jornada semanal de trabalho, reduzir o salário mínimo e privatizar o patrimônio público! Porto Rico já o fez, e os resultados são visíveis.
O pior é que a recessão que as políticas neoliberais ensejam é tão forte que a renda nacional cai a ponto da arrecadação de impostos não ser suficiente para pagar a dívida. Keynes já bem explicou como funciona o multiplicador: políticas pró-cíclicas durante a crise tendem a reduzir muito mais a renda nacional, jogando a economia em uma espiral negativa.
Estão fundamentalmente em jogo políticas que favorecem os detentores de capital em detrimento aos que trabalham. Mas aqueles que trabalham são numericamente muito superiores ao que detêm capital. E o governo grego quer garantir o pagamento dos fluxos de dinheiro às custas dos trabalhadores, ou seja, quer garantir o fluxo de dinheiro de volta àqueles que criaram a crise!
Veja abaixo o vídeo da recente matéria da rede Al Jazeera sobre os efeitos do neoliberalismo em Porto Rico. A reportagem é realmente excelente, servindo como exemplo para o que querem implantar na Grécia.
http://marx21.com/2011/06/29/as-semelhancas-entre-a-grecia-de-amanha-e-o-porto-rico-de-hoje/#more-3755

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