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quinta-feira, 28 de julho de 2011

A fome na Somália

Da BBC Brasil

Quem é o responsável pela fome crônica na Somália?

País enfrenta maior seca em 60 anos, mas efeitos poderiam ser mitigados se houvesse esforço

A ONU declarou recentemente que a Somália está em estado de crise de fome e que dezenas de milhares de pessoas morreram de causas relacionadas à desnutrição no país.

Mas quem tem responsabilidade pela situação somali?

No país e no vizinho Quênia, de onde parte a ajuda humanitária, a maioria dos envolvidos no auxílio ao Chifre da África estão ocupados demais para perder tempo apontando culpados. Mas, ao mesmo tempo, muitos fazem críticas veladas.

O repórter da BBC Andrew Harding fez uma lista de dez aparentes responsáveis pela situação somali, a partir de conversas com especialistas, diplomatas, autoridades somalis, agentes humanitários internacionais e algumas das próprias vítimas da fome.

A lista não inclui um agente óbvio, diz Harding: a seca, a pior dos últimos 60 anos na região.

1) Estados Unidos

O interesse americano pelos EUA é vinculado à “guerra ao terror”, à pirataria e a petróleo, segundo críticos.

Washington não quer nem pensar na possibilidade de dinheiro de ajuda humanitária ir parar nas mãos da milícia islâmica Al-Shabab, que controla grandes partes da Somália e tem elos com a Al-Qaeda.

Isso resulta em uma atitude por vezes ambivalente na ajuda à Somália, que paralisa diversos programas humanitários cruciais.

2) O Programa Mundial de Alimentos (WFP), da ONU

É a única organização com capacidade real de acabar com a fome, mas, por conta de sua forte dependência do financiamento americano – e por motivos políticos –, o WFP tem tido dificuldade em obter garantias para acessar territórios do Al-Shabab.

Ausência de governo forte prejudica esforços na Somália. Para ser justo, o problema é mais complexo do que isso: o WFP teve muitos de seus funcionários mortos na Somália, o que lhe dá um motivo a mais para ser cauteloso.

E, dado seu tamanho, o programa tem dificuldade em trabalhar discretamente, como fazem outras agências da ONU. Ao mesmo tempo, a liderança do WFP, segundo se queixam alguns, tende a um estilo de “diplomacia do megafone” que nem sempre lhe rende amigos.

3) O governo transitório federal da Somália

Conhecido pela sigla TFG, o governo interino, apoiado pelo Ocidente, é tão fraco, marginalizado e ausente da maioria dos territórios, que o papel mais importante que pode desempenhar é o de não atrapalhar as pessoas famintas.

Mas o TFG também simboliza, para alguns, a falência global de tentar construir um Estado na Somália e pode até ter ajudado a prolongar o conflito no país.

“Fale com as comunidades locais”, diz um observador da Somália, em um conselho ao Ocidente. “Não adianta comprar um governo só para ter um premiê com quem conversar.”

4) O Al-Shabab

Bem, lembremos que o Al-Shabab é uma organização “guarda-chuva”, e não coesa. Eles mataram agentes humanitários e bloquearam o acesso da ajuda internacional. O que mais pode ser dito?

"Fale com as comunidades locais. Não adianta comprar um governo só para ter um premiê com quem conversar". Declaração de um observador da situação somali, aconselhando os governos ocidentais

Algumas agências humanitárias aprenderam a ignorar os porta-vozes da milícia e a se concentrar em conquistar a confiança de líderes comunitários locais.

Para alguns na Somália, a crise de fome em curso atualmente pode servir de gatilho para uma revolta popular contra o Al-Shabab. Há sinais de que isso esteja ocorrendo, mas em escala limitada.

5) A expressão "crise de fome"

Ou seja, o hábito coletivo global de apenas encontrar o sentido de urgência e o dinheiro para agir quando já é tarde demais. Se a comunidade internacional gastasse mais dinheiro e esforços em programas de longo prazo que criassem estruturas comunitárias, a crise de fome não teria ocorrido.

6) A imprensa

A ONU produz uma montanha de documentos sobre crises, mas os políticos só decidem agir quando o assunto chega ao noticiário. A pergunta é: por que a crise de fome na Somália demorou tanto para chegar ao noticiário?

7) O Quênia

O país vizinho fez pouquíssimos investimentos em infraestrutura e educação nas comunidades mais pobres, que não puderam se preparar quando chegou a seca.

8) O resto do mundo

A maior parte da África olha com indiferença para a crise, bem como o Oriente Médio e muitos outros países. Será isso uma resposta às falhas e à falência dos esforços humanitários na Somália nos últimos 20 anos? Ou má-vontade?

9) As mudanças climáticas

Todos compartilhamos a responsabilidade pelo fato de que – caso a ciência esteja correta – as secas se tornarão mais e mais comuns com as mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, é possível mitigar os efeitos dessas secas.



Campo de refugiados de Dadaab vive explosão populacional







10) O crescimento populacional

É um fator crucial. Em áreas ao norte do Quênia (que faz fronteira a leste com a Somália), a população dobrou na última década, segundo relatos.

“O dobro de pessoas, mas a mesma quantidade de cabeças de gado. Isso é insustentável”, disse à BBC um especialista em agricultura da ONU. A solução é fazer com que a explosão demográfica ocorra em áreas sustentáveis, e não, por exemplo, em Dadaab, maior campo de refugiados do mundo, que abriga no Quênia pessoas que escapam da pobreza somali.

Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, o campo - criado há 20 anos para receber quase 90 mil pessoas que fugiam da violência da guerra civil na Somália - abriga hoje mais de 350 mil pessoas, número que não para de crescer.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/07/110727_somalia_responsa...

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